May 16, 2019 / 3:37 PM / 9 days ago

ESPECIAL: 'Estou com você' - mulheres trans ajudam vítimas de tráfico no Brasil

SÃO PAULO, (Thomson Reuters Foundation) - Quando Valéria Rodrigues acompanha a polícia brasileira em operações de resgate de mulheres transgênero vítimas de tráfico humano para prostituição, ela vai armada com guloseimas - chocolate, pão, pedaços de frutas.

Como ex-profissional do sexo e mulher transgênero, aos 39 anos, ela sabe que as vítimas que vai encontrar estarão cansadas e com fome depois de uma noite nas ruas.

Ela também fala a língua delas, pajubá, uma mistura de português, iorubá e outras línguas africanas, usada por transgêneros brasileiras para se comunicarem sem serem entendidas por outras pessoas.

“Falar assim foi uma decisão minha para deixar elas mais à vontade”, disse Valéria à Thomson Reuters Foundation ao se lembrar da sua primeira operação com a polícia, em agosto do ano passado.

“(Eu disse) ‘estou com vocês, sou igual a vocês’... foi aí que elas se sentiram representadas.”

A participação de Valéria é parte de uma nova estratégia, iniciada por procuradores federais e do trabalho, de levar profissionais transgênero nas operações para ajudar as vítimas e dar a elas a confiança que precisam para deixar seus cafetões.

Os defensores dos direitos LGBT+ dizem que as mulheres transgênero geralmente desconfiam da polícia e são marginalizadas pela sociedade, o que as torna presas fáceis para abusadores.

Muitas são expulsas de suas casas e terminam em bordéis e pensões, trabalhando em condições análogas à escravidão.

Tentativas de resgate podem ser difíceis porque algumas têm medo de ficar sem moradia ou de serem presas, ainda que a prostituição não seja crime no Brasil.

“Se (Valéria) não estivesse lá, a questão penal aconteceria de uma forma ou outra, mas o resgate das vítimas não”, disse a procuradora federal Sabrina Menegário.

“Para mim é imprescindível contar com uma pessoa transgênero como parte da equipe”.

DISCRIMINAÇÃO

O Brasil é o país mais perigoso do mundo para pessoas transgênero, de acordo com o projeto Trans Murder Monitoring, com pelo menos 167 pessoas assassinadas em 2017.

As pessoas transgênero brasileiras também sofrem com o preconceito e a discriminação, resultantes de atitudes sociais conservadoras no país, de maioria cristã.

O presidente Jair Bolsonaro, autoproclamado “homofóbico com orgulho”, se manifestou de forma ofensiva às pessoas LGBT+ repetidas vezes.

Valéria foi expulsa da casa da família em São Paulo depois de se revelar transgênero por volta dos 16 anos.

Sem educação formal, ela viveu por algum tempo como prostituta antes de se tornar cabeleireira. O ponto da virada em sua vida aconteceu em 2015, quando pôde voltar para a escola com a ajuda de um programa realizado pela prefeitura de São Paulo para mulheres trans.

“A gente teve aulas de direitos humanos, o que foi essencial para minha educação”, disse Valéria. “Aprendi muito sobre direitos internacionais para pessoas trans.”

Em 2016, ela fundou uma organização não governamental, administrada por ela, que ajuda as mulheres trans que escaparam de relacionamentos abusivos com seus cafetões. Quando procuradores começaram a procurar consultores para ajudar com as operações de resgate, seu nome foi apresentado.

O papel dela é conversar com as vítimas, assegurar que seus direitos sejam respeitados.

Mas ela oferece muito mais do que apoio moral.

Sete das 13 mulheres trans resgatadas na primeira operação da qual ela participou no ano passado foram para um abrigo administrado pela sua organização, o Instituto Nice.

A próxima operação da qual ela participou, em março, também incluiu uma auditora fiscal do trabalho transgênero, e levou ao resgate de 17 vítimas, das quais 3 foram para o seu abrigo.

Além de oferecer um lugar para ficarem, o Instituto Nice ajuda as mulheres a alterarem suas certidões de nascimento para que reflitam seu novo gênero e nome, e administra cursos que ensinam a elas novas habilidades profissionais.

No abrigo, ex-profissionais do sexo disseram à Thomson Reuters Foundation que muitos cafetões ofereciam moradia por uma taxa diária, sendo que alguns impunham regras que, se descumpridas, acarretavam multas para as mulheres, o que impunha dívidas a elas.

As que não podem pagar se arriscam a apanhar, passar fome, ou serem forçadas a prostituir-se.

Muitas temem sair sem pagar suas dívidas, ou sentem uma conexão emocional com seus abusadores, disse Larissa Raniel, que trabalha como consultora para o Instituto Nice e também participou de uma operação policial.

Uma mulher trans encontrada por ela, deitada em um colchão no chão, disse ser HIV positivo, mas se recusou a sair sem pagar sua dívida.

“Ela estava tão magra”, disse Larissa. “Tinha remédio, mas não tomava todos os dias.”

OLHANDO PARA O FUTURO

Os cafetões também atraem as mulheres trans ao prometer a elas ajuda com cirurgias de alteração corporal, depois cobram exageradamente por procedimentos ilegais e arriscados, aumentando ainda mais sua dívida.

Júlia - nome fictício - estava entre as mulheres resgatadas na primeira operação de Valéria no ano passado.

A jovem de 20 anos acumulou uma dívida de R$ 4.000 (US$ 1.000) nos meses que passou com um cafetão abusador a quem ela concordou pagar por cinco litros de silicone industrial para alterar seu corpo. Um litro do produto, não adequado para uso médico, pode ser comprado por cerca de R$ 50.

“Eu ia ficar anos e anos trabalhando para pagar minhas dívidas”, disse Júlia, que foi resgatada antes do procedimento ser realizado. Hoje, ela tem um emprego de carteira assinada, e plano de saúde, e começou um tratamento hormonal.

As sobreviventes resgatadas na operação de março ainda não encontraram trabalho fixo, embora Alana, 19, tenha conseguido um trabalho como hostess durante um evento LGBT+ realizado pelo Consulado Espanhol em São Paulo no mês passado.

Agora ela está olhando para o futuro e espera ingressar na universidade para estudar psicologia.

“Eu gosto de ajudar as pessoas com palavras”, disse ela. “Depende delas se vão escutar ou não.” (Com reportagem de Fabio Teixeira e edição de Claire Cozens. Os créditos da matéria devem ser atribuídos à Thomson Reuters Foundation, braço filantrópico da Thomson Reuters, que faz a cobertura de notícias humanitárias, direitos das mulheres e LGBT+, tráfico de pessoas, direitos de propriedade e mudança climática. Visite www.trust.org))

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