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Real tem pior início de ano desde pelo menos 2003 com falta de fluxo e exterior cauteloso

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar fechou em alta nesta sexta-feira e teve o maior ganho semanal em quase sete meses, com o real consolidando o pior início de ano em pelo menos 18 anos, conforme investidores repercutiram a força da moeda norte-americana no exterior e a falta de ingressos de recursos ao país.

Notas de dólares REUTERS/Mohamed Abd El Ghany

As incertezas sobre o rumo da agenda de reformas no país, a relação entre Executivo e Legislativo pós-eleições para Câmara e Senado e o salto de casos de Covid-19 no Brasil têm aumentado as dúvidas sobre o crescimento econômico em 2021, depois de um ano já recessivo em 2020.

Essa combinação mina ainda mais a atratividade do real como moeda de investimento, já afetada pelos juros nas mínimas históricas e pela falta de perspectiva de robustos ingressos de capital.

O dólar à vista fechou esta sexta em alta de 0,31%, a 5,4168 reais na venda, depois de oscilar entre 5,4417 reais (+0,77%) e 5,3225 reais (-1,43%).

Na semana, a moeda saltou 4,34%, maior valorização para o período desde a semana finda em 19 de junho do ano passado (+5,41%).

Considerando os cinco pregões iniciais do novo ano, o real teve o pior desempenho desde pelo menos 2003, iniciando de forma negativa um mês que, sazonalmente, é de entrada de capital ao país e de queda do dólar.

“O que acontece é que não tem mais ninguém vendendo dólar, só o BC”, disse um profissional de um grande banco estrangeiro.

“Fundos já compraram tudo que deviam, bancos já terminaram o overhedge, só tem hedge de clientes. E tem muita pressão no câmbio futuro porque o estrangeiro que está entrando na bolsa está fazendo hedge”, acrescentou, dizendo que o problema está nos juros, que estão “muito baixos para o quadro do país”.

A Selic está em 2% ao ano, mínima histórica, mas os juros reais (descontando a inflação) estão em território negativo, tornando o real uma moeda barata para financiamento ou hedge de posições compradas em outros mercados e ativos, como ações.

Enquanto o real caiu 4,16% na primeira semana do ano, o Ibovespa --principal índice das ações brasileiras-- tinha um salto de 5,2%, batendo um recorde atrás do outro.

“Não temos ainda fluxo novo para sustentar uma apreciação sustentada (do real). Os fundamentos dos termos de troca estão muito favoráveis, com forte alta das commodities. Além disso, liquidez global continua exuberante. Mas precisamos mostrar ordem na casa para atrair esse fluxo”, comentou Marcos Mollica, do Opportunity.

Em nota, o Bradesco avaliou que o agravamento da pandemia pode alterar o cenário de recuperação em alguns indicadores de atividade econômica do Brasil e as projeções vão depender da evolução da doença e do processo de vacinação.

O banco acredita que o real seguirá a reduzir o gap com os pares e encerrar o ano em 5,00 por dólar, mas ressalvou que esse cenário pressupõe manutenção do teto de gastos, continuidade de retomada da atividade e início da normalização monetária.

As questões idiossincráticas que prejudicam o real têm se somado a um ambiente externo de maior cautela, conforme a pandemia escala em algumas importantes economias e fortalece a demanda por ativos seguros, como o próprio dólar.

A moeda norte-americana voltava a subir 0,3% nesta sexta, dando sequência a uma recuperação iniciada depois de tocar, no começo da semana, mínimas em quase três anos.

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